sábado, 2 de junho de 2012

Leandro Cruz - Avião de seda e bambu - parte 3



Onde estão os gênios de nossa época?

Gênios das artes encontro nas ruas. Ou então nos fins de semana, quando eles não têm que apertar parafusos nem vender celulares. Ou, ainda, alguns esqueceram-se que eram gênios e venderam sua genialidade para a indústria cultural, e deixarão de produzir coisas eternas para o espírito humano e/ou importantes para a presente época. Uns no anonimato, outros fora dele porque abriram mão de seu maior bem.

Mas e os gênios da ciência? Onde estão nossos Da Vincis? Nossos Santos Dumonts? Estão todos alugados?

Cadê o menino que queria ser inventor? É inspetor de uma fábrica de motores de carro.

Cadê a menina apaixonada por química e biologia? Está testando cosméticos nos olhos de coelhos.

Ele poderia ter nos libertado da dependência dos combustíveis fósseis. Ela podia ter descoberto na natureza uma molécula plantável que salvasse vidas de doenças terríveis.

Nossos filósofos vendem trufas de chocolate ou DVDs piratas. Nossos astrônomos passaram em concursos públicos e não podem observar os corpos celestes por que têm que acordar cedo.

Algumas pessoas, que eram verdadeiros Pessoas, foram internadas ou pularam da ponte. Outras tomaram Ritalina desde a infância e outras drogas legalizadas recomendadas e impostas e hoje escrevem jingles para vereadores e estão superfelizes com seus novos phones, que são mais smart do que eles próprios.

Para que serve o conhecimento deles? Para que serve o conhecimento de cada um? Ou melhor seria perguntar: “A quem serve seu conhecimento, talento e todo o seu potencial humano, criativo, realizador?”.

Será que o trabalho, o esforço e a dedicação de cada dia que o corpo e a mente do humano fazem estão harmonizados com aquilo que eles desejam e sonham lá no fundo do coração?

Por que penso que talvez não existam gênios? Talvez a coisa esteja no coração. Quanto seu coração se rende para que permitas que seu cérebro seja amordaçado? A diferença é que uns se deixam idiotizar mais, outros menos. Mas, antes, uns vendem seus corações, por medo ou desejo implantado.

A quem estão servindo as universidades públicas hoje? Estão gerando conhecimento para a humanidade, para o país, para as pessoas? Ou será que cada vez é mais comum ver todo o equipamento público, verbas de pesquisa inclusive, cada vez mais produzindo patentes para setores privados? Gera-se dinheiro para poucos e soluções científicas para quem pode pagar.

A questão que se coloca hoje é "de quem é o conhecimento"? E, por conseguinte, é inevitável que se pergunte: De quem é tudo?

A roda, o motor, o tecido oriental impermeabilizado com cera natural, o tratamento do bambu, o sonho de voar, o fogo, o ar, as leis da física e as brechas na lei, de quem são? Fizemos juntos. Nossos ancestrais. Talvez nossos ancestrais tenham sido ajudados pelo conhecimento sublime do design das aves, saber e obra perfeitas por trás da qual também se deu a formação da nossa inquietude, inteligência e sonhos. Por isso Santos Dumont sabia que não tinha inventado o avião sozinho. Inventou com os ancestrais e com quem pesquisou antes. Inventou com quem domesticou o fogo. Inventou com a chinesa que há milhares de anos desenrolou pela primeira Vez, por curiosidade, o casulo do bicho da seda que caiu na sua xícara de chá... E viu que tudo era bom. Foi com todos que observaram as aves antes dele.

Todo conhecimento é colaborativo, porque estamos acumulando juntos já há alguns milhares de anos, colaborando e atrapalhando umas gerações às outras. Todo conhecimento é de todos. Não interessa se dois anos depois de Santos Dumont decolar, voar e pousar os Wright patentearam o avião e disseram ter voado três anos antes dele. Não interessa o que diz o Exército francês.

Depois do desengonçado, mas pioneiro, voo do 14Bis, que tinha o “rabo pra frente”, Dumont continuou inventando. Até chegar à Demoiselle, carinhosamente apelidada de “A libélula”. Esse pequeno avião foi o melhor e mais ágil de sua época. Versátil, portátil. Ele sonhava com um mundo em que todas as pessoas poderiam ter seus aviõezinhos, poderiam até fazer o próprio. E não patenteou. Ele doou os direitos sobre a Libélula para a humanidade. O desenho dela inspirou os aviões pessoais que vieram depois.

Na época, várias oficinas começaram a fazer Libélulas na França. Mas veio também a Guerra Mundial e, em vez de dar liberdade e abolir as fronteiras e diferenças, como sonhou Alberto, as máquinas voadoras foram usadas por seres humanos para matar semelhantes.

Em 1932, no Guarujá, interior de São Paulo, durante a Revolução Constitucionalista, um dos maiores gênios da história da humanidade viu aviões do Exército Brasileiro indo bombardear cidades paulistas. Pelo jeito, ele se suicidou, mas há quem negue isso até hoje e dizem que foi o coração.

Vieram outras guerras. Veio a monopolização do ar e do conhecimento sobre voar. Bem como de todo conhecimento humano, roubado pelo capitalismo, que saiu triunfante do Século XX.

Mesmo que o Século XXI tenha começado com aviões sendo jogados em torres e aviões jogando bombas em aldeias afegãs, tenho motivos para acreditar que o espírito humano está vivo. Renasce e voa, tipo fênix. Afinal, tem meninos que ainda sonham conversando ao redor do mundo e somando conhecimento sobre fazer “discos voadores”. Eu não duvido que um dia (em meses ou décadas) uma esquadrilha independente levante voo. Não sei qual a relação disso com o tempo, mas sei que a planta ainda sabe crescer, a larva ainda sabe fiar e as crianças ainda são curiosas e estão perdendo o preconceito de pedir ajuda para o conhecimento do passado. Já as vejo bombardeando a Terra... Com sementes, para restaurar tudo.


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